Introdução
Manuel Pessanha (finais do séc. XIII-c.1344) foi um mercador e navegador de origem genovesa. Em 1317 foi contratado pelo rei D. Dinis tornando-se Almirante-mor do reino, ofício transmissível por via hereditária e com poder jurisdicional sobre a gente de mar. Fiel conselheiro e embaixador do rei, Manuel Pessanha reformou a Marinha de guerra portuguesa, liderando várias batalhas navais e distinguindo-se nos combates no estreito de Gibraltar (1341), após à Batalha do Salado (1340), que viu castelhanos e portugueses aliados contra a tentativa das milícias muçulmanas de invadir a Península Ibérica.
Desenvolvimento
Manuel Pessanha ou Emanuele Pessagno nasceu no último quartel do século XIII numa família aristocrática lígure de mercadores, peritos navegadores, armadores e homens políticos estabelecidos em Génova. Emanuele foi o segundo de quatro irmãos – Leonardo, Filippo e Antonio – todos sabedores de mar e entregues às atividades marinheiras que, na altura, compreendiam também os tráfegos comerciais por via marítima.
Manuel Pessanha, como é conhecido em Portugal, começou desde muito jovem a andar no mar. O seu exórdio remonta a 1303 quando, junto com o irmão Leonardo, alcançou o Mar Negro assumindo o comando do seu primeiro navio, exercendo a função de alcaide de galé. Em 1316 foi escolhido pelos emissários do rei D. Dinis enviados em missão em Avinhão para exercer o cargo vacante de almirante-mor. No dia 1 de Fevereiro de 1317 foi assinado o contrato entre o monarca e o genovês. No diploma D. Dinis esclarecia que o cargo era vitalício, hereditário e que a sucessão era por linha varonil, impondo o vínculo de vassalagem e lealdade a ele e aos seus sucessores. Além disso, destinava-lhe uma conspícua renda anual e propriedades em Lisboa, estabelecendo que o almirante dispusesse de três galés para o serviço do soberano e garantisse a contratação de vinte homens sabedores de mar de origem genovesa, com o objetivo de formar e treinar a gente de mar com vista a reforma da Marinha de guerra portuguesa (Marques, 1944-1971: I, 27-30). À assinatura do contrato seguiu-se uma intensa produção de diplomas nos quais foram explicitados prerrogativas, privilégios, benefícios, competências e poderes do almirante, mas foi o diploma de 24 de Setembro de 1319 que definiu o “Ofício do Almirantado”, dignidade transmissível por via hereditária, dotada de poder jurisdicional sobre a gente de mar (Marques, 1944: 33-36).
Homem riquíssimo e potentíssimo, fiel ao seu mandato, Manuel Pessanha foi conselheiro e embaixador do rei junto da Cúria pontifícia aquando da emancipação da Ordem de Santiago da Província de Castela e da criação da Ordem de Cristo (Rossi Vairo, 2021: 73-85), tomando o partido de D. Dinis durante a guerra civil que viu afrontar-se o monarca e o herdeiro do trono (1319-1324) (Rossi Vairo, 2019: 427-441). Após a ascensão ao poder de Afonso IV, continuou a servir lealmente o rei também como embaixador, em particular no reino de Inglaterra (Basso, 2002: 249-268). Na qualidade de almirante-mor do reino, acompanhado pelo filho Carlo, liderou várias batalhas navais, nem sempre com sucesso. Durante a guerras contra Castela, sofreu uma derrota no Cabo de Vicente (1337), ficando apresadas as galés da frota portuguesa e ele próprio prisioneiro junto com o filho no castelo de Jerez. Contudo, aquando da tentativa dos exércitos do reino de Granada e do Imperio Marroquino de invadir a Península Ibérica, foi libertado para combater ao lado dos castelhanos, conseguindo derrotar a frota muçulmana no estrito de Gibraltar (1341), a seguir à vitória dos reinos de Portugal contra as forças marroquinas e granadinas na Batalha do Salado (1340). No texto da bula Gaudemus et exultamus in Domino celebrando a vitória dos reinos cristãos contra os infiéis Papa Bento XII louvava o almirante Manuel Pessanha que reformara a Marinha de guerra portuguesa, sem, contudo, nomeá-lo explicitamente (30 abril 1341).
O Bairro do Almirante, zona onde o Manuel Pessanha viveu em Lisboa, ficava próximo do Mosteiro da Santíssima Trindade. Devoto da ordem dos trintários, em 1342 Manuel Pessanha obteve dos frades a concessão de uma capela da igreja, fundada pela rainha D. Isabel após a morte do rei D. Dinis, para sepultura sua e dos seus descendentes (Alessandrini, Duarte, 2019: 35-48). Algumas fontes de época moderna relatam a morte do almirante Pessanha em ocasião do sismo de 1344 que abateu a Sé de Lisboa (Costa, Fonseca, 2007: 7).
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Digital:
ROSSI VAIRO, Giulia (2013) – O genovês Micer Manuel Pessanha, Almirante d’El-Rei D. Dinis. Medievalista [on line], 13 (Janeiro-Junho 2013).
Link:
http: //www.2.fcsh.unl.pt/iem/medievalista/MEDIEVALISTA13/rossivairo1306.html
Referência Bibliográfica
Vairo, G. R.. (2025-01-09). Manuel Pessanha. E-Medieval. Disponível em https://iemdigital.github.io/e-medieval/pessoas/manuel-pessanha/
VAIRO, Giulia Rossi - "Manuel Pessanha". E-Medieval [Em linha]. 2025-01-09, [Consultado a 2025 ]. Disponível em https://iemdigital.github.io/e-medieval/pessoas/manuel-pessanha/
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