Introdução
Maria de Ataíde foi uma freira dominicana que se destacou na produção de livros litúrgicos entre 1463 e 1525. Filha de Beatriz Leitoa, integrou a comunidade de beguinas que esta viria a fundar em 1458 e que originaria, em 1461, o convento dominicano de Jesus de Aveiro. Maria de Ataíde aprendeu a escrever livros litúrgicos com os frades do Convento de Nossa Senhora da Misericórdia de Aveiro e foi responsável por “escrever e ensinar” (Crónica da fundação: 199) no Convento de Jesus. Foi mestra das noviças e, mais tarde, prioresa, cargos que acumulou com o ofício de copista.
Desenvolvimento
Maria de Ataíde era filha de Beatriz Leitoa, uma órfã criada na corte de D. Isabel de Urgel (1409-1459), e de Diogo de Ataíde, fidalgo do Infante D. Pedro (1332-1449). Em 1458, após enviuvar, Beatriz Leitoa, que era próxima dos frades dominicanos do Convento de Nossa Senhora da Misericórdia de Aveiro, decidiu recolher-se com as suas duas filhas, Maria e Catarina de Ataíde, numas casas que construiu junto deste convento (Crónica da fundação: 180). Iniciou assim uma vida dedicada à religião e criou uma pequena comunidade de mulheres que acabaria por dar origem ao convento Dominicano de Jesus de Aveiro em 1461.
A comunidade trabalharia arduamente para reunir as condições necessárias à fundação do convento, nomeadamente no que se refere à construção do edifício conventual e à preparação para a vida religiosa. Esta preparação contou com o apoio dos frades dominicanos de Aveiro com quem as jovens Catarina e Maria de Ataíde começaram a aprender a escrever livros em 1463, um ano antes do início do encerramento da comunidade no novo convento, em dezembro de 1464 (Crónica da fundação: 194; Cardoso, 2018a:14-18). As duas irmãs seriam responsáveis por produzir alguns dos livros litúrgicos necessários para o início da vida religiosa como freiras dominicanas. Segundo a crónica da fundação do convento, em 1466, data da morte precoce de Catarina, as irmãs Ataíde já tinham escrito vários livros para o convento, incluindo dois missais, um dos quais deixado incompleto por Catarina, e um saltério (Crónica da fundação: 203). No início da vida claustral, o prior João de Guimarães atribuiria às irmãs Ataíde a responsabilidade de “escrever e ensinar” (Crónica da fundação: 199), facto que que reflete a importância dada pelos Dominicanos à educação das freiras. Entre 1464 e 1529, é possível documentar um total de cinco copistas no convento: Catarina de Ataíde (1448-1466), Maria de Ataíde (1449-1525), Isabel Luís (1449/50-1542), Leonor de Menezes (?-1484) e Margarida Pinheira (1461-?) (Cardoso, 2019: 101-106).
Maria de Ataíde professou em 1466 continuando a produzir livros litúrgicos para uso da comunidade, facto comprovado pelos dois livros que assina já como prioresa, cargo que exerceu desde 1482 até à sua morte, em 1525 (Cardoso, 2019: 101-106 e 191-197). Além de copista e prioresa, Maria de Ataíde assumiu ainda o cargo de mestra das noviças. Através da crónica da fundação do convento é possível saber que a freira detinha este cargo em 1479, altura em que era mestra da Infanta Joana de Portugal, que era noviça no cenóbio Aveirense (Crónica da fundação: 209). Este cargo era um dos mais importantes da comunidade, exigindo que a sua detentora fosse, não apenas letrada, mas também versada em várias matérias, uma vez que cabia a esta a preparação e treino das futuras freiras. Esta preparação incluía o estudo da regra, das constituições e da liturgia, bem como o ensino do canto coral e de todas as normas relativas à vida em comunidade. A mestra devia ainda encorajá-las a ler textos tais como as Confissões de Santo Agostinho, o De Scientia Christi, de Hugo de S. Victor ou o De Claustro Animae, de Hugo de Fouilloy (Meyer: 443-455; Moiteiro, 2013: 157-158).
Maria de Ataíde foi também responsável pela notação musical dos livros litúrgicos que escreveu para o convento, facto que deixou registado nos colofões com que finalizou alguns destes volumes (Cardoso, 2019: 101-106). Apesar destas notas finais nunca identificarem Maria de Ataíde como iluminadora, é possível que a freira também tenha desempenhado esta tarefa, uma vez que alguns dos seus livros são iluminados e, segundo a crónica da fundação do convento, o primeiro grupo de freiras aveirenses terá aprendido a iluminar livros com um frade do Convento de Nossa Senhora da Misericórdia (Cardoso, 2019: 191-197).
Bibliografia
CARDOSO, P. (2019) - Art, reform and female agency in the Portuguese Dominican nunneries: nuns as producers and patrons of illuminated manuscripts (c.1460-1560): Universidade Nova de Lisboa. Tese de Doutoramento.
CARDOSO, P. (2018a) – “Autonomy and the cura monialium in female monastic art: the fifteenth-century illuminated manuscripts from the Dominican monastery of Jesus of Aveiro”. Journal of Medieval History 44(4), pp. 484–505.
CARDOSO, P. (2018b) – “O papel das monjas na produção cultural observante: produção e aquisição de manuscritos iluminados nos mosteiros Dominicanos femininos portugueses (Séc. XV e XVI)”. In GOUVEIA A. C.; NUNES, J., FONTES, P. (eds.) - Os Dominicanos em Portugal (1216-2016). Lisboa: CEHR - Centro de Estudos de História Religiosa Universidade Católica Portuguesa, pp. 127-145.
Crónica da fundação do Mosteiro de Jesus de Aveiro e memorial da Infanta Santa Joana filha del rei Dom Afonso V. Ed. Domingos Maurício dos Santos. In SANTOS, Domingos Maurício dos - O Mosteiro de Jesus de Aveiro, tomo II-2. Lisboa: Publicações Culturais, 1967, pp. 173–304.
MEYER, J. - Das Amptbuch. Ed. Sarah Glenn DeMaris. Roma: Angelicum University Press, 2015.
MOITEIRO, G. (2013) - As dominicanas de Aveiro (c. 1450-1525): memória e identidade de uma comunidade textual. Universidade Nova de Lisboa. Tese de Doutoramento.
Referência Bibliográfica
Cardoso, P.. (2025-02-03). Maria de Ataíde (1449-1525). E-Medieval. Disponível em https://iemdigital.github.io/e-medieval/pessoas/maria-de-ataide/
CARDOSO, Paula - "Maria de Ataíde (1449-1525)". E-Medieval [Em linha]. 2025-02-03, [Consultado a 2025 ]. Disponível em https://iemdigital.github.io/e-medieval/pessoas/maria-de-ataide/
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