Introdução

Isabel de Aragão (c. 1270-1336), filha de Pedro III de Aragão e de Constança de Sicília, tornou-se rainha consorte de Portugal após o casamento com o rei D. Dinis em 1282. Ao longo da sua vida D. Isabel contribuiu ativamente na política de estabilização peninsular levada a cabo pelo esposo, exercendo a sua autoridade e fazendo pesar a sua influência também dentro dos confins do seu reino. Mulher piedosa e devota, distinguida pela sua atividade caritativa e assistencial, D. Isabel foi antes beatificada em 1516 e depois canonizada em 1625, sendo popularmente recordada como a Rainha Santa.

Desenvolvimento

Isabel de Aragão nasceu em c. 1270, em Saragoça, sendo filha de Pedro III de Aragão e de Constança de Sicília e neta de Jaime I, do lado paterno, e de Manfredo, Rei da Sicília e filho do Imperador Frederico II Hohenstaufen, do lado materno. O nome Isabel foi-lhe dado em homenagem da tia-avó Isabel de Turíngia, canonizada em 1235 e recordada como Santa Isabel da Hungria. A Infanta viveu em Barcelona até ao casamento com D. Dinis, aclamado Rei de Portugal em 1279. As núpcias, resultado das negociações diplomáticas empreendidas por volta de 1280, foram celebradas por procuração a 11 de fevereiro de 1282, mas a noiva pode reunir-se ao seu esposo somente alguns meses mais tarde quando chegou à vila de Trancoso a 24 de junho.

D. Isabel contribuiu ativamente na política peninsular levada a cabo com sucesso por D. Dinis. Para o efeito, acompanhou o rei na qualidade de rainha de sangue “espanhol”, mas também como regina lusitanorum, em várias missões participando nas negociações de Portugal com o reino de Aragão e com o reino de Castela (Conferência de Badajoz, 1303; Conferência de Torrellas e consequente Tratado de Ágreda, 1304). Os casamentos entre D. Constança (n. 1290) e D. Afonso (n. 1291), filhos do casal régio, respetivamente com o Infante Fernando, herdeiro do trono castelhano, e a irmã deste, D. Beatriz, contribuíram para as boas relações com o vizinho reino de Castela. As duplas núpcias foram confirmadas durante o encontro para a assinatura do Tratado de Alcañizes (1297), que definiu as fronteiras entre Portugal e Castela, no qual participou também a rainha. Anos mais tarde, D. Isabel interveio politicamente na contenda entre D. Dinis e o herdeiro D. Afonso que degenerou na guerra civil (1319-1324). Inicialmente, a rainha tomara o partido do Infante, mas a seguir, exortada pelo Papa João XXII a empenhar-se para mediar com o objetivo do apaziguamento dos adversários, foi-lhe reconhecido pelo Pontífice o papel de cohoperatrix provida (Rossi Vairo, 2012: 97-107; 2014: 131-150; 2020: 147-179). Uma vez reestabelecida a paz, a soberana levou uma vida mais retirada, dedicando-se a obras caritativas – a educação de jovens mulheres; a fundação e dotação de institutos, como hospitais ou albergarias, que acolhessem pobres, enfermos, órfãos, crianças abandonadas, mulheres envergonhadas – como já fizera ao longo de toda a sua existência (Andrade, 2012), e também à construção do mosteiro por ela fundado em Coimbra (Macedo, 2020), a partir de 1317, e intitulado a Santa Clara e a Santa Isabel de Hungria.

Após a morte do esposo (7 de janeiro de 1325), a viúva foi em peregrinação ao túmulo do Apóstolo São Tiago Maior para recomendar a Deus a alma do rei defunto e implorar a redenção dos pecados para ele e para si. Chegada a Compostela, D. Isabel foi recebida pelo arcebispo que lhe ofereceu o bordão e a esmoleira de peregrina, peças que a acompanhariam também no sono eterno, pois ambas foram encontradas sobre o ataúde de madeira, depositado dentro do seu monumento pétreo, figurando ainda como atributos do seu jacente na tampa do túmulo (Rossi Vairo, 2021: 16-37). De volta a Portugal, decidiu mudar-se para Coimbra onde foi morar no paço que mandara construir junto do Mosteiro de Santa Clara, levando uma vida de oração e penitência, e dedicando-se à assistência aos pobres e aos enfermos acolhidos no Hospital de Santa Isabel, anexo ao cenóbio, por ela estatuído (1327).

Túmulo de Isabel de Aragão. [Imagem da autora]

D. Isabel morreu a 4 de julho de 1336 em Estremoz. No dia seguinte, decidiu-se conduzir o corpo para Coimbra a fim de receber sepultura na igreja das clarissas em observância das últimas vontades da soberana, sendo depositado dentro do mausoléu mandado esculpir por ela ainda em vida (Rossi Vairo, 2016: 84-97). Após uma tentativa de canonização depois da morte, D. Isabel foi antes beatificada em 1516 e, a seguir, elevada às honras dos altares como Santa Isabel de Portugal a 25 de maio de 1625, sendo popularmente conhecida como a Rainha Santa (Vasconcelos, 1893-1894).

Bibliografia

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Acta Processus super Executione Remissoriae et Compulsoriae Que Fuerunt Facta et Processata in Civitate Colimbrien. in Causa Canonizationis Beatae Domnae Elisabethae quondam Reginae Portugaliae Uxoris Regis Dom Dionisii Quae Iacet in Monasterio Sanctae Clarae Ordinis Sancti Francisci prope et extra mutros Dictae Civitatis. Arquivo Apostólico Vaticano, Congr. Riti, Processus 501.

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