Introdução

O conceito “montaria” acompanhou a evolução da própria prática que nomeia, pelo que não possui um único significado, nem se manteve estanque ao longo dos tempos. No contexto medieval português, começou por se referir à cinegética em geral, passando depois, progressivamente, a denominar apenas uma das vertentes da caça desportiva, própria da aristocracia, que implicava o confronto direto com animais bravios de grande porte, mas também as circunscrições onde se localizavam as coutadas régias votadas ao exercício desta mesma atividade.

Desenvolvimento

O termo “montaria” é exclusivo do espaço Ibérico, não encontrando par noutras geografias (Abalo Buceta, 2008: 11). Olhando para o contexto medieval português, este conceito divide-se, essencialmente, em duas definições. Por um lado, refere-se à atividade cinegética de perseguição e captura de animais selvagens de grande porte. Por outro, denomina o conjunto de coutadas – isto é, espaços reservados – destinadas à prática da caça grossa pelos monarcas. Contudo, as primeiras aparições deste termo na documentação portuguesa, nomeadamente em forais ou inquirições gerais, mostram-nos que a sua aceção terá começado por ser mais lata, referindo-se genericamente à atividade cinegética.

Igualmente, o termo “monteiro”, geralmente identificativo de qualquer indivíduo envolvido nesta atividade, divide-se em diversos significados. Nos primeiros séculos da nacionalidade, identificava aqueles que se dedicavam à caça e cuja condição socioprofissional estava prevista na tributação da época. O foro que lhes era atribuído e os encargos que dele advinham (que comummente incluíam o serviço temporário nas caçadas régias ou do senhor local) terão caído em desuso com a aproximação ao final do século XIII, embora não tenham desaparecido por completo (Gonçalves, 2012: 123-9).

“Monteiros” eram também os oficiais da Corte que acompanhavam os monarcas portugueses e os auxiliavam nas caçadas, mas o termo poderia igualmente designar os oficiais periféricos (também apelidados “monteiros e guardadores”) que protegiam e geriam os espaços reservados para a cinegética régia, criando ainda os canídeos com que nela serviam. É de destacar, ainda, a utilização deste mesmo termo para identificar os nobres ou até monarcas enquanto praticantes da caça de montaria, surgindo esta conotação mormente na cronística e tratadística da época (Sousa, 2023: 15-26).

À medida que nos aproximamos dos finais da Idade Média, a montaria torna-se uma atividade cada vez mais associada à aristocracia e o acesso aos animais de grande porte (como o javali e o urso) cada vez mais interdito às “gentes comuns”. Algo visível, nomeadamente, mas não exclusivamente, na chamada Coutada Velha – uma circunscrição que chegou até nós pelas Ordenações Afonsinas, e que delimitava a área onde se situavam as coutadas régias de montaria (Devy-Vareta, 1985: 60-1). Mas, mesmo fora dela, chegou a ser criada, por D. Afonso V, uma defesa geral. Esta abarcava todo o território a Norte do rio Douro, onde ninguém, independentemente da condição social, podia caçar animais de grande porte com qualquer tipo de armadilha, rede ou besta. Reservava-se, no entanto, a possibilidade de qualquer um o fazer com lança e cães, indo a cavalo ou a pé. Protegia-se, portanto, a prática daquilo que então se entendia por montaria e refreava-se a prática de qualquer outra modalidade venatória (Neves, 1982: 143).

Assim, a montaria – enquanto vertente da caça lúdica, ou desportiva, que implicava o confronto direto e propositado com animais bravios de grande porte – ganha especial relevo, sobretudo no contexto da Corte. Com um propósito de preparação para a guerra, bem como de “desenfadamento” dos que nela se exercitavam, servia como demonstração de capacidades e, no caso dos reis, também como afirmação (ou até confirmação) da sua soberania (Sousa; Martins, no prelo).

A sua relevência refletiu-se na tratadística portuguesa da época, sendo prova o Livro da Montaria de D. João I. Dedicado, essencialmente, à caça do porco montês – algo que distingue este tratado, sobretudo, dos seus congéneres europeus –, expõe com certa originalidade os pressupostos e preceitos que o antigo Mestre de Avis considerava essenciais para a boa execução dessa atividade (Abalo Buceta, 2008, 5-7).

A mutação do significado de “montaria” não cessou, tendo acompanhado a evolução da própria prática – profundamente transformada pela introdução das armas de fogo, algo tardias para o contexto que agora tratamos – e voltando a um significado mais lato de “A caça maior e as suas regras. A caça por excelência” (Boaventura, 1963: 422).

Bibliografia

ABALO BUCETA, José M. (2008) - Livro da Montaria de D. João I de Portugal (1415-1433). Valladolid: Universidad de Valladolid - Facultad de Filosofía y Letras. Tese de Doutoramento, contendo a edição do texto.

BOAVENTURA, Renato. (1984) - Vocabulário de caça. In: COSTA, Carlos Eurico da, dir. e coord. - A Caça em Portugal. vol. 2. Lisboa: Editorial Estampa, p. 399-434.

COELHO, Maria H. da Cruz; RILEY, Carlos Guilherme (1988) - Sobre a Caça Medieval. Estudos Medievais. 9, p. 221-267.

DEVY-VARETA, Nicole (1985) - Para uma geografia histórica da floresta portuguesa: as matas medievais e a “coutada velha” do Rei. Revista da Faculdade de Letras-Geografia. 1ª série, 1, p. 47-67.

GONÇALVES, Iria. (2012) - Por terras de Entre-Douro-e-Minho com as Inquirições de Afonso III. Porto: Afrontamento; CITCEM - Centro de Investigação Transdisciplinar “Cultura, Espaço e Memória”.

NEVES, Carlos Baeta (1980-1983) - História florestal, aquícola e cinegética: colectânea de documentos existentes no Arquivo Nacional da Torre do Tombo: chancelarias reais. vols. 1, 2, 3, 4. Lisboa: Ministério da Agricultura e Pescas Direcção – Geral do Ordenamento e Gestão Florestal.

COSTA, Mário de Almeida; NUNES, Eduardo Borges (1998) - Ordenações Afonsinas: Livro I. Lisboa; Fundação Calouste Gulbenkian.

SOUSA, Afonso Soares de (2023) - Monteiros e Montarias em Portugal na Idade Média. Coimbra: Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Dissertação de Mestrado.

SOUSA, Afonso Soares de; MARTINS, Diana. (no prelo) - Royal Hunting Household: a study of the Portuguese Medieval reality. In: SEQUEIRA, Joana ed. Domestic interiors and household consumption in Europe, 1000-1500. Coimbra: Coimbra University Press.