Introdução
Os cães, “melhores amigos do Homem”, que durante o medievo foram catalogados em diferentes castas (alão, sabujo, cáravo, galgo, podengo e mastim), desempenharam diversas funções no quotidiano das comunidades daquele tempo, evoluindo, por meio do processo de domesticação, à medida das necessidades do ser humano. O seu impacto em diversas atividades e contextos do quotidiano medieval garantiram o crescimento de uma ligação humano-animal que já vinha existindo desde há milhares de anos, garantindo a sua perpetuação até à atualidade.
Desenvolvimento
De entre os vários animais que, ao longo de milhares de anos, foram domesticados, os canídeos são o mais antigo companheiro do ser humano (Walker-Miekle, 2014: 4). Durante a Idade Média, foram distinguidos entre si por castas – o conceito mais próximo daquilo que hoje denominamos raças.
Aos alãos D. João I chamava “a mays linda casta de caães” e, num relato algo mitificado, atribuiu-lhes a capacidade de caçar elefantes e leões (Abalo Buceta, 2008: 115-18). O seu filho D. Duarte acrescentaria que eram capazes de se lançar de telhados e enfrentar o fogo, olhando-os como exemplo de coragem (Piel, 1986: 44). Gaston Phébus, famoso autor do Livre de Chasse, vira um destes cães matar o próprio dono. Era um cão de agarre por excelência, reconhecido pela sua força, ferocidade e incansável mandíbula, muito comum na Península Ibérica e no sul da Europa (Klemettila, 2015: 100-1) e cujas menções documentais, no espaço onde se formaria Portugal, recuam ao século X (Liber Fidei, 2016: 579-80).
Famosos eram também os sabujos, tendo como traços mais característicos as orelhas grandes e penduradas e um apuradíssimo faro (Espí Forcén, 2019: 123-33), muito útil para perseguir o rasto da presa (Sousa, 2023a: 78). Dado o seu perfil eclético no contexto cinegético, o interesse dos reis nos sabujos recua ao primeiro reinado português (Marques, 2017: 261) e manter-se-á até finais da Idade Média, sendo os cães desta casta criados e mantidos pelos oficiais régios da montaria (Sousa, 2023a: 77-8).
O cáravo é, talvez, a mais enigmática das castas, sendo poucas as evidências documentais portuguesas ao mesmo e difícil detalhar a sua fisionomia. No contexto em apreço, é possível que esta denominação identificasse pequenos cães de companhia ou até auxiliares na cetraria (Fernández Domínguez, 2013: 60-9).
O mais veloz era o galgo – animal com perfil esguio, pernas alongadas e reconhecida elegância (Sousa, 2023b: 18). Seria o cão favorito entre as elites europeias (Klemettila, 2015: 102); aspeto que G. Eanes Zurara corrobora ao identificá-lo ao lado da fidalguia portuguesa que combatia no Norte de África (Brocardo, 1997: 372-3, 404-5). As suas capacidades tornavam-no ideal para a caça à lebre, o que lhe garantiu também a designação, sinónima, de lebréu (Braga, 2000: 29).
Sobre o podengo medieval – muito diferente do podengo de hoje – encontramos vestígios documentais que antecedem o reino português (Herculano, 1869: 264). Apelidado de “podengo de mostra” (Abalo Buceta, 2008: 115), era ideal para a caça com açor, tendo como principal função localizar a presa que era posteriormente capturada pela rapina.
Mereceram o interesse de Afonso Henriques, o qual recebera um destes pela róbora de uma doação (Marques, 2017: 261); de D. Sancho I, que, a troco de uma herdade, terá recebido um açor e uma podenga (Herculano, 1961: 1182); ou de D. Afonso III, que, continuadamente, fazia acompanhar os seus açoreiros de 12 podengos (Sousa, 2023a: 31). Mas não eram só os reis que os utilizavam, sendo prova disso as coleiras para podengos elencadas no testamento de um cónego de Coimbra e chantre de Viseu, falecido em 1318 (Morujão & Saraiva, 2001: 92).
Um cão popular (em ambos os sentidos), pouco apreciado por nobres, mas um fiel amigo das “gentes comuns”– protegendo famílias, gados, casas e terrenos agrícolas de intrusos e animais selvagens – era o mastim ou cão de gado. A sua denominação teria como origem os termos “mestim” ou “mestiço”, por ser filho de cão e loba, ou de cadela e lobo (Braga, 2000: 31-2), ou pelo menos por aparentá-lo.
Os cães marcaram a sua presença na sociedade medieval, salvaguardando comunidades, servindo como auxiliares cinegéticos, dando o alerta em caso de perigo, inclusivamente em contexto bélico; mas também enquanto representação de ostentação, servindo até como presente diplomático (Moeglin, 2017: 214-5) Simplesmente, fizeram companhia aos seus donos, no conforto das suas casas e até das suas camas (Walker-Miekle, 2020: 55-74), estabelecendo uma ligação ainda hoje perpetuada.
Bibliografia
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