Introdução

O território de Alcácer do Sal foi ocupado pelos muçulmanos entre os séculos VIII e XIII. A longa permanência naquele espaço ficou materializada nas estruturas e espólios encontrados durante intervenções arqueológicas ocorridas na cidade e no espaço rural. A análise das fontes escritas e o estudo dos testemunhos materiais provenientes dos referidos trabalhos, bem como de novas prospecções e sondagens arqueológicas realizadas mais recentemente, permitiu compreender a riqueza do território e as dinâmicas ocorridas no povoamento no decorrer daquela cronologia.

Desenvolvimento

As intervenções arqueológicas ocorridas na madina de Alcácer permitiram dar a conhecer o dispositivo defensivo e os espaços habitacionais islâmicos, assim como um conjunto de estruturas que evidenciam as técnicas, bem como as capacidades de armazenagem e conservação empreendidas pelos muçulmanos que habitaram a cidade entre séculos VIII e XIII. Nos arredores da madina de Alcácer, e sob o domínio daquela, estavam os assentamentos rurais onde habitavam as comunidades, bem como os castelos rurais e torres atalaias que, articulados entre si, protegiam e defendiam a cidade.

Localização dos assentamentos islâmicos identificados no território (mapa elaborado a partir do QGIS).

No que concerne à evolução e alterações ocorridas no povoamento do território de Alcácer ao longo dos séculos referidos, verificou-se, a partir dos dados recolhidos, que durante os Períodos Tardo-Romano e Visigótico permaneceram ocupadas as antigas villae, até pelo menos ao século IV d.C., mantendo-se, contudo, algumas habitadas até ao Período Islâmico. A partir do século V, com a queda do Império Romano do Ocidente e a chegada à Península Ibérica dos povos germânicos, as comunidades, que até então habitavam as villae, abandonam estes locais para se fixarem em zonas elevadas, com melhores possibilidades de defesa, e fortificadas com uma torre atalaia ou recinto amuralhado.

Em 844, após o primeiro ataque viking no ocidente peninsular, juntamente com as várias rebeliões de muladis, bérberes e moçárabes que ocorriam nesta altura nos territórios limítrofes de Alcácer, surge, por iniciativa do poder central de Córdova e dos Banū Dānis, um conjunto de dispositivos defensivos junto ao rio Sado, bem como no interior do território, para controlo e proteção dos principais eixos viários (Leitão, 2024: 29-45). Com a centralização do poder e pacificação do al-Andalus promovida por Abd al-Raḥmān III, no século X, Alcácer cresce e desenvolve-se, tornando-se capital de distrito. Surgem nesta altura novas fortificações, povoados e alcarias dispersas pelo território, nas proximidades dos solos mais férteis e de cursos de água, enquanto aqueles assentamentos que já existiam expandem as suas áreas habitacionais.

1. Cerro do Castelo Omíada de Vale de Trigo, Alcácer do Sal; 2. Vista geral da estrutura defensiva após a conclusão dos trabalhos arqueológicos; 3. Planta da muralha colocada a descoberto com a marcação da quadrícula.

Ocorre o abandono das antigas villae, casais e alguns povoados de altura e fortificados que tinham surgido anteriormente, mantendo-se, contudo, operacionais alguns castelos e as torres atalaias para vigilância e defesa dos principais caminhos terrestres e fluviais, assim como para controlar a população campesina que vivia nos seus arredores e proceder à recolha dos tributos. Aquela matriz de povoamento vai manter-se sem grandes alterações durante os Reinos de Taifa e Período Almorávida.

A partir de 1160, com a primeira conquista Cristã e, posteriormente, em 1191, com a tomada de Alcácer pelos Almóadas, o território da cidade entra, numa primeira fase, em declínio, tendo sido abandonados grande parte das fortificações e assentamentos que se achavam dispersos pelo território. Após a consolidação do Califado Almóada na cidade o território volta a sofrer profundas alterações que cortam radicalmente com os modelos de povoamento verificados nas épocas anteriores. Surgem nesta altura os grandes recintos fortificados, erguidos em taipa e implantados no interior dos vales, dotados de sistemas de abastecimento de água como cisternas, albercas e poços. Estes vão concentrar no seu interior, e de forma permanente, as comunidades que se achavam dispersas anteriormente pelo território. Por outro lado, mantêm-se operacionais algumas das fortificações que já existiam, tendo-se procedido a reformulações nas suas defesas, mas também as torres atalaias e alguns assentamentos rurais precedentes e que se achavam nas imediações daqueles dispositivos defensivos (Leitão, 2023b: 217-238).

Após a conquista definitiva Cristã de Alcácer em 1217, as fortificações e torres atalaias que existiam na região são desativadas, perdendo a sua função militar, mantendo-se, contudo, alguns assentamentos ocupados, transformando-se alguns daqueles locais nas paróquias tardo medievais.

Bibliografia

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CARVALHO, António Rafael; PAIXÃO, António Manuel Cavaleiro (2001) - “Cerâmicas almóadas de al-Qasr al-Fath (Alcácer do Sal)”, Garb: Sítios Islâmicos do Sul Peninsular. Lisboa/Mérida: IPPAR/Junta da Extremadura, pp. 199-229.

LEITÃO, Marta Isabel Caetano (2016) - “Alcácer do Sal Durante o Período Muçulmano (IX-XIII)” in Debates de Arqueología Medieval, nº 6. Granada, pp. 209-234.

LEITÃO, Marta Isabel Caetano (2020) - “O Sistema Defensivo Islâmico do Território de Alcácer do Sal - Abordagem Preliminar”. In LOPES, Virgílio; PALMA, Maria de Fátima (eds.) - O Território e a Gestão dos Recursos entre a Antiguidade Tardia e o Período Islâmico. Granada: Alhulia, Nakla Colección de Arqueología y Patrimonio, pp. 437-459.

LEITÃO, Marta Isabel Caetano (2023a) - “O Castelo de Vale de Trigo (Alcácer do Sal): dados das intervenções arqueológicas” in ARNAUD, José Morais; NEVES, César; MARTINS, Andrea (coord.) - Arqueologia em Portugal: 2023- Estado da Questão. Lisboa: Associação dos Arqueólogos Portugueses/ CEAACP, CEIS20 e IA-FLUC, pp. 1047-1060.

LEITÃO, Marta Isabel Caetano (2023b) - A organização do Território no Sudoeste do Ġarb Al -Andalus - povoamento rural e paisagens fortificadas na kūra de Alcácer do Sal. Tese de Doutoramento em Arqueologia apresentada à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

LEITÃO, Marta Isabel Caetano (2024) - “O Povoamento Emiral da Kūra de Al-Qaṣr (Alcácer do Sal, Portugal)” in al-Andalus Magreb, vol. 31. España: Universidad de Cádiz. pp. 25-48.