Introdução

Durante a Idade Média prevaleceu uma visão sacralizada da natureza. Os letrados medievais acreditavam que, sendo uma criação divina, a natureza tinha inscritos os ensinamentos morais e religiosos a serem seguidos pelos cristãos. Através de uma abordagem simbólico-alegórica, tentavam descortiná-los, num processo que remetia para o realizado pela exegese bíblica. Esta visão teve a sua origem na Patrística. A penetração dos textos aristotélicos, efetuada a partir de finais do século XII, possibilitou o desabrochar de uma abordagem mais racionalista do mundo físico, a partir da sua observação.

Desenvolvimento

Sendo a sociedade medieval maioritariamente rural, a natureza impunha-se aos homens marcando os ritmos das suas vivências, condicionando a sua organização e pondo em causa, por vezes, a própria sobrevivência. Devido às consequências negativas que podia trazer à estabilidade económica e social, os homens medievais temiam as imprevisíveis manifestações da natureza, mesmo quando os clérigos as remetiam para o Criador e para a Sua capacidade de dispensar graças e punições. Numa época em homens se revelavam incapazes de a dominar e controlar, e os seus seres eram uma presença constante na vida das populações, os letrados medievais não manifestaram interesse pelo estudo da natureza em si. Foi aos textos sagrados cristãos que recorreram para tentar explicar as, muitas vezes desestabilizadoras, manifestações naturais. Deste modo, a cosmovisão medieval foi marcada pelos escritos dos primeiros grandes pensadores cristãos e a exegese bíblica que efetuaram.

No Ocidente, S. Agostinho, um dos pensadores mais marcantes do cristianismo, concebia o mundo como um livro de origem divina que, à semelhança das Sagradas Escrituras, precisava de ser lido e descodificado em função do seu Demiurgo e Criador. Mas, ao privilegiar uma via de interiorização mística, acabou por não contribuir para que o mundo físico fosse entendido como realidade a analisar e manipular.

Na Patrística Oriental, sobretudo a partir de Orígenes, desenvolveu-se um pensamento que acentuava a leitura alegórica e moral, que, juntamente com a literal e anagógica, devia ser utilizada para entender as Sagradas Escrituras e, por extensão, a Criação. Os letrados cristãos da Alta Idade Média procuraram, assim, através de uma abordagem simbólico-alegórica da natureza, descortinar nos seus seres os sinais que o Criador neles tinha inscrito, de forma a entender os ensinamentos morais a serem seguidos pelos cristãos e a explicação dos mistérios teológicos. No entanto, a Bíblia não foi a única fonte para a cosmovisão medieval. Também o foram os escritos dos naturalistas da Antiguidade, tidos na Idade Média como auctoritas, mesmo quando transmitiam visões do mundo manifestamente fantasiosas.

A partir do século XII, o movimento das arroteias possibilitou o florescimento da ideia de um possível domínio das comunidades rurais sobre a natureza. Ao mesmo tempo, muitos espaços florestais passaram a ser habitados por comunidades que tinham tido como percursores os eremitas. Mais habilitados a agir sobre o mundo circundante, os homens da época começaram a considerar mais atentamente a natureza e o seu estudo suscitou um interesse crescente.

Contudo, não se tratava de uma visão da natureza concebível em si mesma, fora da condição de criação de Deus e como forma de O glorificar. Quando os filósofos do século XII falavam do estudo da natureza, referiam-se à necessidade de a conhecer para o homem nela se descobrir e de progredir na compreensão da ordem divina. A grande penetração de textos letrados de origem greco-romana e, em particular, as traduções e comentários árabes dos tratados de Aristóteles, sobretudo a partir do último quartel do século XII, marcaram, decisivamente, o desabrochar de uma nova cosmovisão. Segundo Aguiar de Castro, “tratava-se não só do contacto” com “um novo sistema” de organização e funcionamento do Universo, “mas sobretudo de uma reformulação completa dos princípios de abordagem de fenómenos naturais” (J. Castro, 1997: 41).

Assistiu-se à difusão de uma monumental obra teórica, baseada na observação dos fenómenos naturais e pronta a criar roturas no método simbólico-alegórico de decifração da natureza. Advogaram-se propostas experiencialistas para encontrar e enunciar as leis que regiam a natureza e o mundo. Mas se a emergência das cidades marcou os primórdios de uma visão racionalizante do mundo, nunca a sociedade medieval deixou de permanecer tributária de uma conceção simbólico-alegórica da natureza.

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