Introdução
O Bestiário é um género literário medieval, de origem clerical, onde se divulgavam caraterísticas e comportamentos animais, que depois surgem moralizados, de forma a transmitirem os ensinamentos morais e religiosos que os clérigos pretendiam difundir na sociedade. As informações relativas aos animais contidas nos bestiários não provinham da observação dos seres naturais, mas do que a seu propósito a Bíblia e os textos da Antiguidade Clássica tinham legado. Eles serviam de pretexto à moralização que se seguia. O Bestiário expõe, assim, uma visão moral e sacralizada da natureza.
Desenvolvimento
O Bestiário é um género literário medieval cujas obras foram sobretudo produzidos na Inglaterra e na França. No entanto, podem-se encontrar exemplares deste, ou de obras nele inspiradas, em quase todo o ocidente medieval.
O Bestiário caracteriza-se por referenciar diversos animais, podendo alguns ser imaginários, com a descrição das características físicas e os comportamentos que cada um teria, denominadas de proprietas ou naturas. Depois surgem as leituras simbólico-alegóricas daquelas (designadas como moralitas ou “figuras”). Nestas transmitem-se os ensinamentos morais e teológicos que os clérigos medievais pretendiam difundir e consolidar na sociedade. A descrição dos animais não pretendia assim ser factual. Ela servia, sobretudo, como mote para apresentar a moralização que se seguia. O Bestiário, veicula, deste modo, a visão sacralizada da natureza que foi predominante na idade Média.
Quanto à origem das naturas, ela é diversa, pois tanto remete para as informações contidas nos textos bíblicos ou no dos Padres da Igreja, como para as divulgadas nos textos provindos da Antiguidade, como as fábulas ou os escritos dos naturalistas, entre outros. As visões dos seres naturais presentes em outras tradições culturais, que contribuíram para a formação da cultura letrada medieval, também influenciaram as obras pertencentes ao género, mas sem o impacto da bíblica e das obras herdadas da Antiguidade.
Se o Bestiário é um produto sobretudo do século XII, a sua origem é bem anterior. Terá sido por volta do século II que em Alexandria ou, posteriormente, noutro local da costa oriental mediterrânica, que, de autor anónimo, surgiu uma obra que influenciou a visão do mundo animal na Idade Média, e viria a dar origem ao novo género literário. Trata-se de o Fisiólogo, ou seja, O Naturalista. Escrito em grego, o seu sucesso originou versões em diversas línguas, nomeadamente em etíope, arménio, sírio e latim. Nesta última língua conhecem-se várias versões, que se multiplicaram a partir do século V. Até ao século XII, foram-se registando alterações e desenvolvimentos, tanto no que ao número de animais representados, como às respetivas leituras simbólico-alegóricas. A novidade do Fisiólogo consistiu em apresentar os seres naturais segundo uma estrutura binária, como atrás explicitámos quando referimos como se estruturam o Bestiário. A maior parte dos autores acredita que o original perdido apenas apresentava a descrição dos animais, que depois foi alvo das moralizações efetuadas por autores cristãos. Mencionava igualmente propriedades das plantas e dos minerais. Posteriormente, surgiram, separadamente, os herbários e os lapidários.
Dos desenvolvimentos de que o Fisiólogo foi alvo, destaca-se a “interferência das Etimologias de Santo Isidoro de Sevilha” levando a que “os manuscritos” sejam “reorganizados de acordo com a classificação proposta pelo bispo de Sevilha” (Varandas, 2006: 6) no capítulo dedicado aos animais nas Etimologias. No início do século XII, um clérigo, Philippe de Thaön, traduziu a obra para língua vulgar, surgindo, pela primeira vez a designação de “bestiário”, que viria a ser adotada para as obras com características semelhantes.
Muitos bestiários são ilustrados com figuras que retratam alguns dos comportamentos animais explicitados nos textos, embora surjam exceções, pois algumas representações transmitem informações não veiculadas na parte escrita. Os principais centros de elaboração dos bestiários foram os mosteiros. A partir de finais do século XII, a grande penetração de textos letrados de origem greco-romana e, em particular, os comentários árabes dos tratados de Aristóteles, marcaram, o desabrochar de uma cosmovisão “mais racionalista, baseada na observação direta e no raciocínio lógico que dominaram o pensamento europeu até ao século XVII e à Revolução Científica” (Varandas, 2006: 35). Esta evolução levou ao desaparecimento progressivo do Bestiário.
Bibliografia
BAXTER, Ron (1988) - Bestiaries and their users in the Middle Ages, Gloucestershire: Sutton Publishing Ltd.
BIANCIOTTO, G., (ed.)(1992) - Bestiaires du Moyen Age. s. l., Éditions Stock.
DIEKSTRA, F. N. M.(1985) - The Physiologus, the bestiaries and medieval animal lore. In. Neophilologus 69, pp. 142-155.
CHAMBEL, P. (2022) - Estudos de simbologia na cultura medieval Galaico-Portuguesa, Chișinău: Generis Publishing.
CLARK, W. B, McMUNN, M.T, (1989) - Beasts and birds of the Middle Ages. The Bestiary and its legacy. Philadelphia: University of Pennsylvania Press.
CURLEY, M.J. (1980) - Physiologus, Φυσιολονια and the rise of christian Nature Symbolism. In: Viator 11, 1980, p. 1-10.
FINNAZZI-AGRÒ, E. (1993) – Bestiários. In: LANCIANI, G., TAVANI, G.(org) - Dicionário de literatura medieval galega e portuguesa, Lisboa: Caminho, 1993, p. 83-85.
FLORES, N. C. (1996) - Animals in the Middle Ages. A book of essays. New York and London, Garland Publishing.
GEORGE, W., YAPP, B. (1991) - The naming of the beasts: Natural history in the medieval Bestiary. London: Duckworth.
HASSIG, D., (ed.) (1999) - The mark of the beast. The medieval Bestiary in art, life and literature. New York and London: Garland.
HASSIG, D., (ed.) (1995) - Medieval bestiaries. Text, images, ideology. Cambridge: Cambridge University Press.
KLINGENDER, F. (1971) - Animals in art and thought to the end of Middle Ages. London: Routledge and Kegan Paul Ltd.
MARTINEZ MANZANO, T., CALVO, C. (eds.) (1999) - Pseudo Aristóteles, anónimo, Fisiólogo. Madrid: Editorial Gredos, 1999.
McCULLOCH, F. (1962) - Medieval latin and french bestiaries. Chapel Hill: University of North Caroline Press.
MIRANDA, A., CHAMBEL, P. (eds) (2014) - Bestiário medieval: Perspectivas de abordagens. Lisboa: FCSH. [Consultado a 26 Dezembro Março 2024]. Disponível em https://run.unl.pt/bitstream/10362/12142/1/bestiariomedieval.pdf.
RONECKER, J. (1994) - *Le symbolisme animal: Mythes, croyances, légendes, archétypes, Folklore, imaginaire … *. St-Jean-de-Braye: Éditions Dangles.
ROWLAND, B., (1973) - Animals with Human faces. A guide to animal symbolism. Knoxville: The University of Tennessee Press.
SALISBURY, J. (1994) - The beast within: Animals in the Middle Ages. New York, Routledge.
VARANDAS, M. A. (2003) - A voz no Bestiário: Ecos da raposa na literatura inglesa. Lisboa, Faculdade de Letras.
VARANDAS, M. A. (2006) - A Idade Média e o Bestiário. Medievalista, [Em linha] 2 (2006), pp. 1- 53 [Consultado a 23 Dezembro 2024]. Disponível em https://medievalista.iem.fcsh.unl.pt/index.php/medievalista/article/view/411.
VOISENET, J. (1994) - *Bestiaire chrétien. L’image animal des auteurs du Haut Moyen Age (Vº - XIº s.) *. Toulouse: Presses Univ. du Mirail.
VOISENET, J. (2000) - Bêtes et hommes dans le monde médiéval. Le bestiaire des clercs du Ve au XIIIe siècle. Turnhout, Brepols, 2000.
Referência Bibliográfica
Chambel, P.. (2025-01-09). Bestiário. E-Medieval. Disponível em https://iemdigital.github.io/e-medieval/documenta%C3%A7%C3%A3o/bestiario/
CHAMBEL, Pedro - "Bestiário". E-Medieval [Em linha]. 2025-01-09, [Consultado a 2025 ]. Disponível em https://iemdigital.github.io/e-medieval/documenta%C3%A7%C3%A3o/bestiario/
Direitos de Autor
Este artigo é publicado sob licença Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivatives 4.0 International
A licença acima identificada não se aplica às imagens presentes no artigo. A licença de cada imagem é identificada na respetiva legenda.