Introdução
Nascido em 1031, Ibn ʿAmmār foi um célebre poeta e vizir da Taifa de Sevilha. Oriundo do Ġarb al-Andalus, a vida de Ibn ʿAmmār surge marcada por uma notável produção poética, à qual subjaz um percurso político não menos importante, com ecos em distintas partes da Península Ibérica. Enquanto figura central da corte sevilhana, o poeta-vizir desempenha uma ambiciosa e atribulada atividade política, militar e diplomática, que culminará na sua queda em desgraça e subsequente assassinato.
Desenvolvimento
Abū Bakr Muḥammad Ibn ʿAmmār (1031-1084/1085) destaca-se como um dos mais proeminentes poetas do século XI, durante o período de taifas, cujo percurso político influencia decisivamente as vicissitudes políticas e militares do seu tempo. Nascido em 1031 – ano que assinala a dissolução oficial do Califado omíada –, o poeta é natural da qarya (aldeia) de Šannabūs, na proximidade de Silves (ALVES, s.d.). Ibn ʿAmmār inicia a sua formação literária em Silves, num período marcado pela instabilidade política e militar do sul peninsular, porém florescente a nível cultural e literário.
Em 1053, Ibn ʿAmmār instala-se em Sevilha, procurando atrair as boas graças do emir al-Muʿtaḍid ibn ʿAbbād, a quem dedica um poema panegírico de destaque, na sequência da vitória do emir sobre adversários berberes. Dada a qualidade do poema, é admitido na sua corte literária (SIDARUS, 2005, p. 18; HADJADJI, 2002, p. 87). Afinal, os soberanos das taifas encontram nos seus poetas de corte um meio fundamental de legitimação e exaltação política (HADJADJI, 2002, p. 85). Igualmente, este período histórico destaca-se pelo fomento da vida cultural e literária no âmbito das cortes dos reinos de taifas, à imagem do esplendor da corte califal omíada, dos quais se destaca a Taifa de Sevilha sob os Banū ʿAbbād (FIERRO, 2024, pp. 494-495). De resto, o talento literário de Ibn ʿAmmār anunciará uma crescente influência política sobre os governadores da taifa.
Em Silves, o poeta acompanha o jovem Muḥammad, herdeiro ao trono e futuro al-Muʿtamid, nomeado para o governo da cidade recém-conquistada, tornando-se uma figura determinante na sua vida política, literária e, inclusive, íntima (GARCÍA SANJUÁN, s.d.). Desfavorável à relação íntima do poeta com o futuro emir, al-Muʿtaḍid ordena o regresso do filho a Sevilha e expulsa Ibn ʿAmmār dos seus domínios, que se refugia em Saragoça (DEL MORAL MOLINA, 2013, p. 122).
Em 1069, al-Muʿtamid sucede ao trono da taifa. Prontamente, o seu mentor regressa a Sevilha, sendo-lhe concedido o governo de Silves. Aliás, dada a sua influência sobre o emir, o poeta é nomeado vizir da taifa de Sevilha (ALVES, s.d.). Por conseguinte, Ibn ʿAmmār beneficia de uma notável ascensão política, tendo em vista continuar a política expansionista da taifa, sobretudo no Šarq al-Andalus (Oriente peninsular). Procurando tirar partido da fragmentação político-territorial do sul islâmico, Ibn ʿAmmār identifica Granada e, em seguida, Múrcia como alvos prediletos do seu ambicioso projeto expansionista, alicerçando-se numa política de alianças com o norte cristão. Junto com Afonso VI de Castela, o poeta-vizir procura conquistar a rival taifa de Granada, ainda que sem sucesso. Com o mesmo monarca, negoceia ainda a sobrevivência da taifa de Sevilha, mediante o pagamento de parias (ALVES, s.d.).
Posteriormente, Ibn ʿAmmār alia-se ao conde de Barcelona numa tentativa de apoderar-se de Múrcia. Contudo, fracassa novamente e apenas numa segunda tentativa conquista a taifa levantina, em 1078, promovendo um governo pessoal e autónomo na mesma (HADJADJI, 2002, p. 91). Neste contexto, cada vez mais distanciado de Sevilha e difamado pelos seus rivais políticos, al-Muʿtamid toma consciência da deslealdade do vizir, que cai em desgraça face à perda de apoio político. De regresso a Sevilha, o poeta é aprisionado no palácio do emir (HADJADJI, 2002, p. 93).
Em 1084/1085, confiante de que a sua poesia laudatória livrá-lo-ia da prisão, o poeta acaba por morrer assassinado por al-Muʿtamid (GARCÍA SANJUÁN, s.d.). Aliás, mesmo que por fim fracassasse em recuperar a confiança do emir, a produção poética de Ibn ʿAmmār revela-se como o grande fio condutor da sua trajetória de vida (VÁZQUEZ, 2005, p. 136). Por outro lado, o poeta surge também como figura paradigmática das potencialidades políticas do conhecimento e produção literária no mundo islâmico medieval (FIERRO, 2024, p. 496; 508).
Bibliografia
ALVES, Adalberto – “Ibn ʿAmmār Al-Šilbī, Abū Bakr”. Enciclopédia de la Cultura Andalusí. Biblioteca de al-Andalus (BA) [Em linha]. [Consultado a 19 dezembro 2024]. Disponível em: https://eculturaandalusi.es/autor/2396.
FIERRO, Maribel – “Non-caliphal Rulers and Their Writings in the Islamic West (2nd–9th/8th–15th Centuries)”. In FIERRO, Maribel; BRENTJES, Sonja; SEIDENSTICKER, Tilman (eds.) – Rulers as Authors in the Islamic World. Leiden: Brill, 2024, pp. 489-517.
GARCÍA SANJUÁN, Alejandro – “Ibn ’Ammar”. Real Academia de la Historia, Diccionario Biográfico electrónico [Em linha]. [Consultado a 17 dezembro 2024]. Disponível em: https://dbe.rah.es/biografias/9725/ibn-ammar.
HADJADJI, Hamdane – “Ibn Ammâr al-Andalusi: le poète vizir d’Al Mu’tamid, prince de Séville”. Xarajîb. Revista do Centro de Estudos Luso-Árabes de Silves 2 (2002), pp. 85-100.
del MORAL MOLINA, Celia – “Un siglo de contrastes en la poesía andalusí: Esplendor en Sevilla y oscuridad en Granada”. In ROLDÁN CASTRO, Fátima (ed.) – El siglo de al-Mu’tamid. Sevilha: Editorial Universidad de Sevilla, 2013, pp. 111-127.
SORAVIA, Bruna; SIDARUS, Adel (eds.) – Literatura e Cultura no Gharb al-Andalus. Actas do III Simpósio Internacional. Lisboa: Hugin Editores / Instituto de Investigação Científica e Tropical, 2005.
Referência Bibliográfica
Silva, M. A. M. da. (2025-01-02). Ibn ʿAmmār. E-Medieval. Disponível em https://iemdigital.github.io/e-medieval/pessoas/ibn-ammar/
SILVA, Miguel Antônio Martins da - "Ibn ʿAmmār". E-Medieval [Em linha]. 2025-01-02, [Consultado a 2025 ]. Disponível em https://iemdigital.github.io/e-medieval/pessoas/ibn-ammar/
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