Introdução

D. Martinho foi abade do Mosteiro de Alcobaça entre 1170 e 1191. Durante o seu abaciado, o scriptorium do mosteiro iniciou a produção de códices e foi este abade que estabeleceu regras de proteção para os mesmos, impondo excomunhão a quem os subtraísse. Em 1178, deu-se início à construção do edifício, com a colocação da primeira pedra. D. Martinho foi uma figura relevante junto da chancelaria régia e recebeu privilégios papais em 1184 e 1189, fortalecendo a autoridade monástica em Alcobaça. É lembrado como uma figura central na formação da comunidade monástica alcobacense.

Desenvolvimento

D. Martinho foi abade do Mosteiro de Alcobaça (imagem) entre fevereiro de 1170 e 30 de novembro de 1191 (Gomes, 2012: 140). Durante o seu abaciado, em torno de 1175, o scriptorium (link E-encyclopedia) do mosteiro deu início à produção dos códices fundamentais para a vida monástica, entre os quais se destacam livros litúrgicos, como um saltério-himnário, um sacramentário, um missal, um colectário-ritual, um himnário e um lecionário, e um antifonário, entre outros códices (Barreira, 2024: 130-135 https://trivent-publishing.eu/img/cms/2024%20Cistercian%20Horizons/8-%20Catarina%20Fernandes%20Barreira.pdf).

Vista da fachada do Mosteiro de Alcobaça. [Imagem da autora]

D. Martinho foi pioneiro na implementação de medidas de proteção para os livros, impondo a excomunhão a quem os retirasse do mosteiro, conforme consta no cólofon do códice BNP, Alc. 365 (https://purl.pt/23973/1/index.html#/1/html), que contém o Decretum de Brocardo de Worms (Nascimento, 2018: 341): “Este livro pertence a Santa Maria de Alcobaça. E eu, Martinho, o abade deste lugar, digo e confirmo que quem o tirar ou levar desta casa, pela autoridade de Deus Todo-Poderoso e de sua mãe, de São Bento, de São Bernardo e de todos os santos, seja excomungado e incida na indignação de Nosso Senhor Jesus Cristo e de Santa Maria”. (Iste liber est Sancte Marie de Alcobacia. Et ego Martinus eiusdem loci abbas dico etiam confirmo ut quicunque eum auferre aut extra domum istam dare presumpserit auctoritate omnipotentis etiam eius genitricis etiam beati Benedicti et beati Bernardi etiam omnium sanctorum anatema sit et indignationem domini nostri Ihesu Christi et beate Marie se incurrere non dubitet).

Página do Decretum Burchardi Wormatiensis, Alcobaça, (1176-1190). [Imagem em Domínio Público]

Foi sob a sua liderança que se iniciou a construção do mosteiro, com a colocação da primeira pedra em 1178, segundo uma placa epigráfica moderna — cópia de uma medieval — que se encontra na parede da igreja do mosteiro (Gusmão, 1991: 22-23; Barroca, 2008: 417-419; Jorge, 2017: 83).

Durante o seu abaciado, o mosteiro produziu cerca de quarenta e nove documentos ou diplomas, segundo António Guerra, com participação ativa de três monges escribas: Gunsalvus, Frater Petrus e Frater Martinus (Guerra, 2003: 238-239).

Entre 1180 e o ano seguinte, o abade racionaliza o povoamento do couto, como assim o atestam as cartas de povoamento. Em 1183, o mosteiro obteve uma nova carta de doação do couto (Gomes, 2000: 42-43; Gomes 2002: 209); em 1189, D. Sancho I doou à comunidade e ao abade, o paul da Ota; e em 1191 doa ao mosteiro e ao seu abade o castelo de Benafecim (Gomes, 2002: 210). D. Martinho foi um abade próximo do círculo régio: figura como subscritor/testemunha de documentos relevantes da chancelaria real, como a doação de Abiúl ao Mosteiro de Lorvão por D. Afonso Henriques em 1175, e como testemunha no primeiro testamento de D. Sancho I (Gomes, 2002: 210-212).

O Papa Lúcio III dirigiu-se ao abade e aos monges de Alcobaça através da bula Religiosam Vitae em 1184 para confirmar os privilégios instituídos pelo papa anterior, bem como enunciar os novos limites territoriais do mosteiro; em 1189, o Papa Clemente III fez nova confirmação dos privilégios e reforçou a autoridade do abade perante as autoridades eclesiásticas (Gomes, 2002: 220, 227).

A data do óbito de D. Martinho é registada em dois martirológios copiados no scriptorium: o ANTT ms 17 (Fundo de Lorvão) (https://digitarq.arquivos.pt/viewer?id=4484151), datado do final do século XII), e o BNP, Alc. 231 (https://purl.pt/33313/1/html/index.html) , de meados do século XIII (Barreira, 2024: 130-135). Infelizmente não chegou até nós a sua lápide sepulcral, outrora na Sala do Capítulo (onde o abade deve ter ficado sepultado, como era previsto pela norma), embora tenha sido lida pelos cronistas de Alcobaça Manuel dos Santos e António Brandão. No entanto, há que ressalvar que, à data da sua morte, a Sala do Capítulo deveria estar em obras de iniciação, portanto, desconhecemos onde é que os seus restos mortais repousaram provisoriamente.

D. Martinho é reconhecido como figura central na formação e consolidação da comunidade monástica de Alcobaça nos seus primeiros anos, sendo lembrado através de diversas fontes históricas, nomeadamente documentos, inscrições nas paredes do edifício e nos códices preservados provenientes da biblioteca do mosteiro.

Bibliografia

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