Introdução
Durante o segundo quartel do século XI, a cidade de Silves (Šilb) encabeça – efémera e autonomamente – a formação de um reino de taifa no sudoeste do Ġarb al-Andalus, face ao desvanecimento do poder califal. Se inicialmente o governo da Taifa de Silves é assumido por uma dinastia local interessada na sua legitimação e na defesa do seu território, posteriormente, esta dinastia sucumbirá às pretensões expansionistas da Taifa de Sevilha, disposta a protagonizar uma reunificação do al-Andalus.
Desenvolvimento
As disputas internas e externas que minam a estabilidade e a unidade política do Califado omíada de Córdova, durante a fitna do século XI, potenciam uma paulatina atomização do poder no al-Andalus, que é confirmada com a dissolução oficial do Califado, em 1031, e a subsequente afirmação dos Reinos de Taifa. Face ao desaparecimento da autoridade califal centralizadora, o poder passa a concentrar-se nas principais cidades do al-Andalus.
Retirado de: Hemeroteca Municipal de Lisboa. [Imagem em Domínio Público]
No sul do Ġarb, são sobretudo as elites locais pré-existentes a assumir as rédeas do poder nos territórios sob a sua influência. Deste modo, a autonomização política da Taifa de Silves é protagonizada por uma dinastia local ligada à administração da cidade, sendo o primeiro governador independente da taifa, à época, qāḍī (juíz) da cidade (CORREIA, 2010, p. 424). Esta dinastia – os Banū Muzayn – assume um poder autónomo em Silves, devido à sua influência política, social e económica, a nível local, potenciada pelos elevados cargos exercidos no âmbito da justiça e da administração em época califal (PICARD, 2000, p. 71). Por outro lado, a legitimação do poder destas novas soberanias locais torna-se imperiosa face à conturbada conjuntura político-militar do período de taifas. Desde logo, as dinastias locais mais arabizadas, como os Banū Muzayn, recuperam títulos honoríficos (laqab) de época omíada e procuram afirmar a sua linhagem árabe, como elemento de afirmação política e socioeconómica (PICARD, 2000, pp. 70-71). Deste modo, os Banū Muzayn de Silves surgem associados a um erudito do século VIII com o mesmo nisba (patronímico) de origem iemenita. Contudo, desconhecem-se estudos que comprovem esta ligação familiar (GONÇALVES, 2008, p. 40). Igualmente, não existem referências aos Banū Muzayn desde o século VIII até à formação da Taifa de Silves no século XI, podendo tratar-se de uma família mūwallad (convertida ao islão) que terá estabelecido laços clientelares com árabes aquando da ocupação islâmica da Península (MARÍN, 1998, pp. 369-370). Aliás, as fontes islâmicas reconhecem a cidade de Silves pela erudição e pelos dotes literários da sua população, assim como pela “pureza” do árabe falado na cidade. Ora, este modelo cultural de matriz árabe aliado à suposta origem iemenita da dinastia detém “prestígio social” (MARÍN, 1998, p. 364) e importância política (PICARD, 2000, pp. 150-151).
Apesar de tudo, a autonomização dos Banū Muzayn não tarda a ser eclipsada pela afirmação político-militar da Taifa de Sevilha, que, a meados do século, conquista a Taifa de Silves pela força das armas. Afinal, os Banū ʿAbbād de Sevilha almejam o protagonismo político, militar e cultural de Córdova, visando recuperar a unidade do território através de uma política expansionista (PICARD, 2000, p. 76; 83). Quanto à cidade de Silves, as fontes islâmicas denotam o esforço de defesa da cidade, cujo sistema defensivo terá sido reforçado face à iminente ameaça externa (CORREIA, 2010, p. 447). No entanto, o período de taifas coincide também com um importante desenvolvimento urbanístico de Silves, confirmado pelo crescimento populacional extramuros e pela expansão do arrabalde oriental, subsequentemente amuralhado durante este período (GONÇALVES, 2008, pp. 138-139; 177). De resto, a reputação cultural e intelectual de Silves no Ġarb é reforçada pelo emir al-Muʿtamid de Sevilha, que imortaliza a área palatina da cidade na sua obra literária, nomeadamente o Palácio das Varandas. Sob o domínio dos Banū ʿAbbād, Silves converte-se num nevrálgico centro urbano da dinastia sevilhana (PICARD, 2000, p. 78).
Por último, da mesma forma que a cronologia respeitante à Taifa de Silves é bastante díspar nas fontes medievais, atualmente subsistem dúvidas no que toca ao número de governadores independentes da Taifa de Silves, que terá variado entre três e cinco governadores, e à respetiva duração no poder (CORREIA, 2010, pp. 444-445; GARCÍA SANJUÁN, s.f.).
Bibliografia
CORREIA, Fernando Branco – Fortificação, guerra e poderes no Ġarb al-Andalus (dos inícios da islamização ao domínio norte-africano). Évora: Universidade de Évora, 2010. Tese de Doutoramento.
GARCÍA SANJUÁN, Alejandro – Isà b. Abi Bakr b. Muzayn. Real Academia de la Historia, Diccionario Biográfico electrónico [Em linha]. [Consultado a 5 de dezembro de 2024]. Disponível em https://dbe.rah.es/biografias/17944/isa-b-abi-bakr-b-muzayn.
GONÇALVES, Maria José – Silves islâmica: a muralha do arrabalde oriental e a dinâmica de ocupação do espaço adjacente. Faro: Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Universidade do Algarve, 2008. Tese de Mestrado.
MARÍN, Manuela – “A l’extrémité de l’Islam medieval: élites urbaines et islamisation en Algarve”. Annales. Histoire, Sciences Sociales 53/2 (1998), pp. 361-381 [Consultado a 3 de dezembro de 2024]. Disponível em https://www.persee.fr/doc/ahess_0395-2649_1998_num_53_2_279669.
PICARD, Christophe – Le Portugal musulman (VIII ͤ - XIII ͤ siècle): L’Occident d’al-Andalus sous domination islamique. Paris: Maisonneuve & Larose, 2000.
Referência Bibliográfica
Silva, M. A. M. da. (2024-12-19). Taifa de Silves. E-Medieval. Disponível em https://iemdigital.github.io/e-medieval/s%C3%ADtios%20e%20territ%C3%B3rios/taifa-de-silves/
SILVA, Miguel Antônio Martins da - "Taifa de Silves". E-Medieval [Em linha]. 2024-12-19, [Consultado a 2025 ]. Disponível em https://iemdigital.github.io/e-medieval/s%C3%ADtios%20e%20territ%C3%B3rios/taifa-de-silves/
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