Introdução

Idácio de Chaves nasceu por volta de 400 nas proximidades de Xinzo de Límia. Foi cedo elevado a bispo de Acquae Flauiae (Chaves), assumindo um papel não só pastoral como político, tornando-se líder efetivo da sua comunidade. A sua prelatura coincide com o assentamento de Suevos, Vândalos e Alanos na Península Ibérica a partir de 409. Idácio deixou-nos uma Crónica que, além de narrar os principais acontecimentos políticos operados no Noroeste Peninsular entre 379 e 468, faz transparecer as resistências e ansiedades de parte da comunidade hispano-romana face aos novos senhores da Hispânia.

Desenvolvimento

A principal fonte para o conhecimento da vida de Idácio é a própria crónica que nos deixou, onde, mais que uma vez, faz referência a si mesmo na terceira pessoa. Entre 406 e 407, Idácio rumou em peregrinação à Terra Santa, descrevendo-se como « *et infantulus et pupillus *», pelo que poderá ter nascido por volta de 400. O étimo *pupillus * («órfão») sugere que Idácio terá sido levado à Terra Santa às custas de um familiar após o falecimento de um ou ambos os progenitores. Por outro lado, cerca de 150 anos mais tarde, Isidoro de Sevilha explicava nas suas *Etimologias * que, no seu tempo, *pupillus * designava simplesmente um rapaz pequeno, pelo que é possível que fosse também este o significado pretendido pelo cronista.

Detalhe nas páginas iniciais do Chronicon na versão publicada por Lutetiae Parisiorum em 1619. [Imagem em Domínio Público]

De qualquer modo, esta experiência terá sido estruturante para Idácio, uma vez que recorda na crónica ter podido assistir à pregação dos bispos João de Jerusalém, Eulógio de Cesareia e Teófilo de Alexandria, assim como S. Jerónimo, então presbítero de Belém. Idácio estaria há pouco tempo regressado a casa quando, em 409, se dá a entrada de Suevos, Vândalos e Alanos na Península Ibérica, no quadro da luta pelo poder entre o imperador Honório e o usurpador Constantino III. Em 411, os contingentes bárbaros repartem as províncias da Galécia entre si, e o seu assentamento torna-se irreversível quando a corte de Ravena abandona o projeto de recaptura da Hispânia. A bem ou mal, Idácio teria, ao longo da sua vida, de coexistir com a nova elite sueva instalada no território da província da Galécia (Galiza e Norte de Portugal).

Idácio foi elevado à dignidade episcopal com cerca de 30 anos, em 428. Além do mérito próprio – de que se salienta a alta erudição da sua escrita – a isto terá sido conducente a sua popularidade no seio da sua comunidade.

O Flaviense nunca aceitou inteiramente a mudança de regime, insistindo em listar na sua crónica a sucessão de imperadores romanos como se a sua autoridade fosse ainda sentida na Hispânia. No ano de 431 desloca-se à Gália para pedir uma intervenção militar do *magister militum * («general») Aécio contra os Suevos, expectativa que se viu frustrada.

Idácio pugnou ainda pela ortodoxia religiosa na sua província. Em 445, colabora com o bispo Toríbio de *Asturica * (Astorga) para suprimir a heresia priscilianista. Trocam mesmo correspondência com o papa Leão I, que recomenda a realização de um sínodo à escala peninsular – o qual, contudo, nunca se realizou (Muhlberger, 1990: 195-196).

Em 460, Idácio é feito prisioneiro por Frumário, um dos caudilhos suevos que então competiam pelo trono, sendo libertado após três meses de cativeiro. Incaracteristicamente, Idácio não atribui a culpa da sua prisão aos Suevos, mas a três « *delatores *» romanos, o que sugere que na própria comunidade hispano-romana houvesse talvez quem se incompatibilizasse com Idácio e que recebesse mesmo sem reservas a nova ordem política da Galécia.

O último empreendimento da vida de Idácio deve ter sido a escrita da sua Crónica. R. W. Burgess defende que a redação apenas terá começado após a invasão do Reino Suevo pelos Visigodos entre 457 e 458, uma vez que este acontecimento é apresentado como o clímax de toda a obra (1993: 5). Não obstante, é provável que a sua recolha de informação tenha começado bastante mais precocemente, afirmando o cronista que tomou conhecimento dos acontecimentos que o antecederam aquando da sua ascensão a bispo (428).

Como referido, na sua estadia em Jerusalém Idácio contactou com S. Jerónimo, por quem doravante nutriu grande admiração. A motivação por detrás da escrita da sua crónica terá sido a descoberta de uma versão dos *Chronici canones * de Eusébio de Cesareia, traduzidos para latim e alargados por S. Jerónimo. Idácio propunha-se, com a sua obra, a dar continuidade ao texto de S. Jerónimo, narrando aqueles que acreditava serem os últimos dias da Humanidade (Burgess, 1993: 9-10).

O texto da Crónica cessa após o ano de 468, altura em que o autor teria cerca de 70 anos, sendo de supor que tenha falecido por esta altura.

Bibliografia

BURGESS, R. W. (1989) – Hydatius: A Late Roman Chronicler in Post-Roman Spain. An Historiographical Study and New Critical Edition of the Chronicle, PhD thesis (Oxford).

BURGESS, R. W. (1993) – The Chronicle of Hydatius and the Consularia Constantinopolitana. Two contemporary accounts of the final years of the Roman Empire. Oxford: Clarendon Press.

DÍAZ, P. C. (2011) – El reino suevo (411-585). Madrid: Ediciones Akal.

MATTOSO, J. (1992) – O Reino dos Suevos e o destino da Lusitânia (409-470). In MATTOSO, J. (coord.) – História de Portugal (vol. I): Antes de Portugal. Lisboa: Círculo de Leitores, pp. 305-310.

MUHLBERGER, S. (1990) – Hydatius. In Muhlberger, S. – The Fifth-century Chroniclers. Prosper, Hydatius, and the Gallic Chronicler of 452. Leeds: Francis Cairns, pp. 193-266.

Fontes Primárias

Hydat. = Hydatius Limicus, Chronica Subdita, ed. R. W. Burgess (1993) – The Chronicle of Hydatius and the Consularia Constantinopolitana. Two contemporary accounts of the final years of the Roman Empire. Oxford: Clarendon Press.