Introdução

Isabel Luís professou no Convento de Jesus de Aveiro em 1466, tendo ingressado na comunidade não regrada que o precedeu aos nove anos de idade. Especializou-se no canto coral e é lembrada no necrológio do convento pelos muitos livros litúrgicos que escreveu para a comunidade. É a única freira que se identificou como iluminadora dentre as cinco copistas ativas no Convento de Jesus de Aveiro entre 1464 e 1529. É também aquela que mais livros nos legou. As imagens que produziu caracterizam-se por um estilo naïve que espelha as devoções e a memória da comunidade aveirense.

Desenvolvimento

Isabel Luís era filha de um frade dominicano que, após ter enviuvado, ingressou no Convento de Nossa Senhora da Misericórdia de Aveiro. Por volta de 1458/9, João de Guimarães, prior do dito convento, intercedeu junto de Beatriz Leitoa, líder de um pequeno grupo de beguinas que vivia junto do cenóbio aveirense, para que esta recolhesse a pequena Isabel Luís (Crónica da fundação: 182). Isabel integrou assim esta comunidade feminina que, apesar de levar uma vida devota e recatada, não estava sujeita a qualquer ordem religiosa. Este grupo de mulheres acabaria por se integrar na família Dominicana, tendo obtido autorização da Santa Sé para fundar um convento dessa ordem em 1461.

A comunidade reuniu esforços para obter rendas que sustentassem as futuras freiras e construir o edifício conventual, estando reunidas as condições para o início da clausura em dezembro de 1464 (Crónica da fundação: 189-193; Cardoso, 2019: 48-49). Em conjunto com outra jovem, de seu nome Grácia Álvarez, Isabel Luís foi destinada à aprendizagem do canto e do Ofício Divino (Crónica da fundação: 199). No memorial das irmãs que faleceram no Convento de Jesus de Aveiro, é referida como uma ávida produtora de livros para o coro, função que estava intimamente ligada ao canto e ao Ofício Divino, que aprendera desde cedo (Memorial: 349). Era à cantora, freira responsável pelo coro e pela preparação do Ofício Divino, que cabia a preparação, cuidado e atualização dos livros litúrgicos que guiavam a prática coral.

Isabel Luís, Processionário (colofão), Aveiro, Museu de Aveiro / Santa Joana, 1488, (PT/MA/ANTF 8, fol. 85r). Fotografia de Paula Cardoso.

Isabel Luís foi uma das cinco copistas ativas no Convento de Jesus de Aveiro entre 1464 e 1529 (Cardoso, 2019: 101-106). Apesar de apenas ser possível documentar o seu trabalho na produção de livros entre 1481 e 1491, é possível que Isabel Luís tenha desempenhado esta tarefa por um período mais alargado, como sugerido pela referência, no necrológio do convento, aos “muitos livros” que terá produzido (Cardoso, 2019: 101-106).
Isabel assina alguns dos livros que nos chegaram do Convento de Jesus de Aveiro, hoje depositados no Museu de Aveiro / Santa Joana e na Biblioteca Pública de Évora. Em 1489 já teria uma experiência considerável neste ofício, tendo copiado pelo menos quatro processionários (pequenos livros que guiavam a celebração das procissões conventuais e eram carregados pelas freiras durante as mesmas) entre julho e novembro desse ano. Para além destes, é possível atribuir-lhe a feitura de outros processionários produzidos no convento no final do século XV (Cardoso, 2019: 101-106 e 191-197). Escreveu também livros destinados a guiar a celebração do Ofício Divino no coro, bem como um missal e um cerimonial. Este último contém as instruções para várias cerimónias celebradas no convento, tais como a profissão das noviças ou ritos relacionados com os cuidados aos enfermos e o enterro dos mortos (Cardoso, 2018a).

Isabel Luís, Antifonário do Santoral (Assunção da Virgem), Aveiro, Museu de Aveiro / Santa Joana, 1488, (PT/MA/ANTF 26, fol. 72v). Fotografia de Paula Cardoso.

Sabemos, através do seu próprio testemunho, que Isabel foi também iluminadora. Esta informação é-nos facultada no colofão de um dos livros que escreveu em colaboração com Maria de Ataíde, onde afirma ter acabado de escrever o volume e tê-lo iluminado. A iluminura de Isabel Luís caracteriza-se por um estilo muito próprio, em que a qualidade técnica é secundária, dando primazia à função de materializar em imagens as devoções e a memória da comunidade aveirense. Apesar de se identificar como iluminadora apenas num dos livros que nos chegaram, é possível atribuir a esta freira a decoração de outros livros quatrocentistas do corpus aveirense (Cardoso, 2018a).

Isabel Luís foi também mestra das noviças cargo que, segundo a cronista do Convento de Jesus, desempenhava em 1475 (Crónica da fundação: 252). Teve ainda a incumbência de reformar o convento Dominicano de Nossa Senhora da Anunciada de Lisboa, tarefa usualmente atribuída às freiras mais letradas e experientes. Partiu para esta missão em 1518, acompanhada por um pequeno grupo de irmãs, regressando a Aveiro dez anos depois, devido à sua idade avançada (Cardoso, 2020: 376).

Bibliografia

CARDOSO, P. (2020) – “Unveiling female observance: reform, regulation and the rise of Dominican nunneries in late medieval Portugal”, Journal of Medieval Iberian Studies 12:3, pp. 365-382.

CARDOSO, P. (2019) - Art, reform and female agency in the Portuguese Dominican nunneries: nuns as producers and patrons of illuminated manuscripts (c.1460-1560): Universidade Nova de Lisboa. Tese de Doutoramento.

CARDOSO, P. (2018a) – “Autonomy and the cura monialium in female monastic art: the fifteenth-century illuminated manuscripts from the Dominican monastery of Jesus of Aveiro”. Journal of Medieval History 44(4), pp. 484–505.

CARDOSO, P. (2018b) – “O papel das monjas na produção cultural observante: produção e aquisição de manuscritos iluminados nos mosteiros Dominicanos femininos portugueses (Séc. XV e XVI)”. In GOUVEIA A. C.; NUNES, J., FONTES, P. (eds.) - Os Dominicanos em Portugal (1216-2016). Lisboa: CEHR - Centro de Estudos de História Religiosa Universidade Católica Portuguesa, pp. 127-145.

Crónica da fundação do Mosteiro de Jesus de Aveiro e memorial da Infanta Santa Joana filha del rei Dom Afonso V. Ed. Domingos Maurício dos Santos. In SANTOS, Domingos Maurício dos - O Mosteiro de Jesus de Aveiro, tomo II-2. Lisboa: Publicações Culturais, 1967, pp. 173–304.

Memorial de todas as madres e irmãs que nesta casa de nosso Senhor Jesus faleceram. Ed. Domingos Maurício dos Santos. In SANTOS, Domingos Maurício dos - O Mosteiro de Jesus de Aveiro, tomo II-2. Lisboa: Publicações Culturais, 1967, pp. 347-359.

MOITEIRO, G. (2013) - As dominicanas de Aveiro (c. 1450-1525): memória e identidade de uma comunidade textual. Universidade Nova de Lisboa. Tese de Doutoramento.